Sunday, July 24, 2011

Fiz um amigo na parada de ônibus, o Jefferson, nao sei se é assim que se escreve, um rapaz muito legal, bem jovem, provavelmente em torno dos 20 anos, educado, amigavel, e com ele aprendi outro trajeto possivel, tive algumas dicas muito boas. O tipo de coisa que em anos de transporte publico la fora nunca me aconteceu. Nunca fiz um amigo na parada do ônibus, no metrô, nos trens. Ja fiz em aviao, mas em aviao até a pessoa menos amistosa do mundo é obrigada até a olhar pra você, porque passar 8horas ou mais sentado lado a lado cria uma certa proximidade, ainda que forçada. Se bem que me lembro de um indiano (ou similar, paquistanês, bangladeshi) que passou 9 horas do meu lado num vôo e nem quando eu me levantei para que ele se levantasse, nao me disse nem por favor nem obrigado. Era um caso de extremo isolamento (é que eu nao gosto de chamar ninguém de mal-educado). E em dois dias de ponto de ônibus cruzei alguém solicito como o meu amigo Jeferson!

Esta' certo que nem tudo é diferente por aqui. Duas mulheres quase me derrubaram no metrô, uma porque nao gostou que eu estava na escada errada (a que descia, e eu subia) e outra assim, gratuitamente. Nao estou falando de uma trombadinha, mas de uma locomotiva que vem na tua direcao sabendo pertinentemente que vai te acertar e até te olha nos olhos antes. Coisa de gente frustrada, os neo nazis das horas de pico. Aproveitam esse anonimato para descontar nos outros a raiva acumulada. O dia que eu chegar nisso acho que faço as malas e volto pra minha casinha naquele vilarejo perdido.

Do que mais tenho gostado é da minha volta ao hospital. Eu sei que nasci pra isso, e nao é um sacerdocio nem algo tao altruista assim, entre outras coisas e é claro que ajudar alguém é algo maravilhoso, o que me estimula mais é o amor que tenho pela ciência, pelo desafio de achar um diagnostico e tratar aquele paciente para que ele tenha uma vida normal ou melhor de novo. Eu me realizo nessa profissao. Tem tanto que nao sei, mas sinto tanto prazer em aprender que sei que vou chegar la. Melhor ainda do que antes.

Monday, July 11, 2011

Jeitinho brasileiro

Pois é, o tal do jeitinho brasileiro vive sendo criticado como se fosse apenas um modo que o brasileiro achou de enganar as regras do jogo e conseguir o que quer, mas as pessoas esquecem que o jeitinho pode ser uma mostra da engenhosidade e da versatilidade que muitos aqui usamos no trabalho, na vida de todo dia, honestamente.

Aqui em casa houve um acidente e o piso de madeira sofreu algumas lascaduras. Pedi a alguém que viesse olhar o que poderia ser feito e esse senhor, muito prestativo, me disse que poderia procurar um produto que preenche as lascaduras e ja na cor do piso, mas que para isso ele precisaria levar a cor e como nao temos amostras ele teve uma idéia genial: olhou para uma publicidade que recebi de um restaurante e achou a cor do piso bem no bife da foto! Cortou um pedacinho e la foi ele comprar o produto. Imagino que isso até aconteça em outros lugares do mundo (nao em Luxemburgo, muito menos na França, pelo menos acho eu) mas aqui isso é parte da nossa cultura, do nossa vida de todo dia. Adoro esse lado sem medo de errar do brasileiro.

E é claro, adoro a mordomia de se ter uma manicure e pedicure em casa, por um preço que nao pagaria nem três dedos la fora. Três dedos manicurados, logico...

Sunday, July 10, 2011

Rede Social

Quando o orkut foi criado, em pouco tempo virou quase um monopolio brasileiro. Quem experimentou os dois mundos, o de dentro e o de fora do Brasil, entende perfeitamente o porquê. O brasileiro, mais que qualquer outro povo que eu conheça, é extremamente sociavel, aqui todo mundo se encontra, se conhece e troca informacoes pessoais em três minutos, como se fosse um facebook do mundo real!


Ontem fui comprar uma Veja na livraria Saraiva. Chegando ao caixa, a mocinha me perguntou se eu queria a nota fiscal e eu estava sem meu CPF, que, é claro, nao uso fora do Brasil, e por isso nao decorei. Como aqui todo mundo memoriza o seu, alguém que nao o faça parece meio limitado intelectualmente e para nao acharem que sou burra, eu logo explico que nao uso muito, que moro fora;  dai a conversa partiu naturalmente para onde eu morava, e a Luana (oi Luana, se você estiver lendo!), muito simpatica, me contou que esta' pensando em ir estudar Historia de Arte na Italia daqui a uns anos, quando terminar seus estudos, que tem amigos la, eu contei onde morava, que estava voltando, que tinha um blog contando como tem sido essa volta, etc e que ela podia me adicionar no Facebook, que la tinha o link para o blog. Tudo isso em um pouco mais de 3 minutos e assim, naturalmente. 


Além desse contato social tao facil, ontem fiquei maravilhada com uma Brigadeiria. Ja tinha me apaixonado pelas agora tao comuns Temakerias. Essa reatividade do brasileiro em criar negocios rapidamente, e a resposta do povo que adora novidades, tudo isso sempre me surpreende ao mesmo tempo que me parece natural, afinal eu também, la fora, sou das primeiras que vao experimentar algo novo enquanto muitos ainda estao esperando a opiniao dos outros. Nao sei direito explicar de onde vem essa sede de novidade que é tao pronunciada na gente, sera que é porque nao somos desconfiados e vamos inocentemente testar tudo o que aparece? 


Nesse ponto o Brasil parece os Estados Unidos, assim que algo cai no agrado no povo, a gente cria um negocio e explora esse caminho muito mais rapidamente que na velha Europa, onde sempre achei que faltava nao iniciativa, mas rapidez e uma certa facilidade de romper tradicoes. Croissanteria nao tem nem na França, pode? E tem aqui. Também nao vi um Chucruteria na Alemanha, mas nao me espantaria se no futuro inventassem uma no Brasil, caso a chucrute venha a se popularizar :)


O que eu acho mais ainda interessante é esse lado do brasileiro que gosta de se modernizar, claro, como todo mundo, mas muito mais rapidamente às vezes que a estrutura do pais permite. A gente faz a lei antes de estudar a infra estrutura, e é por isso que com frequencia fica dificil implementar essas leis otimas que o pessoal bola. Por exemplo, espera limitada nos bancos. Eu sei que a lei existe mas nao impediu o Banco do Brasil de SV de me fazer esperar 4 horas por um atendimento. Ou agora a lei de internet gratuita nos aeroportos, sera que foi uma idéia que alguém teve durante uma horinha em que esperava o aviao num aerporto qualquer do Brasil? Porque em aeroportos la fora nao tem internet gratuita, o maximo que vi foi uma hora gratuita depois de responder a um questionario, ou algo assim. Mas estou falando de alguns aeroportos, nao todos, claro, e de leis que exigem isso deles. Acho a idéia otima! Nunca tive tanta internet gratuita como no Brasil, e adoro. Alias nos divertimos ha 5 meses andando de carro em SP e vendo os nomes que as pessoas dao às suas conexoes internet, quando o celular captava os roteadores dos prédios em volta. Tentei em Paris e nao consegui ou so vi coisa normal, tipo o sobrenome da pessoa e um numero. Ninguém coloca nomes engraçados como no Brasil. 


O unico bemol do dia na verdade nao me chocou, porque embora eu esteja fora ha duas décadas, nunca deixei de saber que vivemos numa sociedade muito desigual, e por isso quando vi um garotinho até bem vestido pedindo para pagarem algo pra ele comer no Café da Livraria Saraiva, me lembrei que mesmo como todas as melhorias do pais, toda a riqueza chegando, ainda temos muito o que fazer. O brasileiro ja entendeu que pais rico é pais sem pobre, ao menos sem pobre totalmente abandonado a si mesmo. Porque pobres sempre vao existir, mas é como a gente os ajuda que faz a diferença entre os desenvolvidos e o resto.

Friday, July 8, 2011

Descontraçao

Nunca mais digo que o inverno do Brasil é o verão de Luxemburgo. Nao é! Passei tanto frio essa semana, acho que nunca passei esse frio em Luxemburgo pela simples razão que as casas la sao bem isoladas termicamente e têm aquecimento. Aqui, nada. As janelas deixam entrar o frio, e a industria da construção parece nao se interessar por isolaçao, e olha que é até mais ecologico. Se algum arquiteto ou engenheiro civil estiver lendo, por favor me instrua... O dinheiro que a gente acaba gastando com esses aquecedorezinhos elétricos é um escândalo. Enfim... espero que dure pouco, ando congelada :) estou até enrolando pra tomar banho.


Mas vamos ao que interessa. Depois de duas quedas e varios roxos pelo corpo ontem, tive meu momento de diversão indo ao supermercado com a minha familia. Na fila das lojas Pernambucanas eu e minha afilhada vimos uma moça experimentando um sutiã por cima da roupa. Na maior naturalidade. Nao estão chocados? Pois é, choque cultural! Eu me acostumei a ver francesa pagando calcinha, elas nao estão nem ai, mas experimentar sutiã por cima da roupa na fila, acho que isso nao fariam :)


Uma boa surpresa foi a pontualidade das pessoas que prestam serviços. Ontem o pessoal que veio entregar o sofa, veio na hora combinada, hoje também o técnico da maquina de lavar chegou exatamente quando disse que viria... eu ja tinha me acostumado com a frase modelo que usam em Luxemburgo, viremos de manha, entre as 9 e 12, nao podemos precisar, e na maior parte das vezes ninguém aparecia até a gente ligar e marcar um outro dia, quando provavelmente eles diriam a mesma coisa mas chegariam às 14 horas! 


E nada se compara às padarias! Que maravilha!!! Logo de manha, antes das 9 horas, poder tomar um chocolate quente gostoso, com mil tipos de paes, doces, frutas, ah as frutas!!! Aqui tem fruta fresca colhida menos de três semanas antes e que nao precisou viajar ainda verde até o outro lado do planeta! Eu adoro frutas!!! E nao tem so laranja, maça e a frutinha da época que pode ser ou morango, ou ameixa ou pera, mas raramente todas juntas... aqui tem outras, mais doces, mais sensuais, mais tudo. 


Pois é, o Brasil devia exportar o conceito de padaria e o de salgadinho. Alias, devia ser patrimonio nacional.

Wednesday, July 6, 2011

Papagaios e vizinhos

Acordei com algum passaro tropical gritando como um louco, por um momento pensei que estava ainda em Luxemburgo e nao entendi nada. Devia estar brigando com os papagaios que retornaram ha alguns anos a varias partes desta cidade sub-tropical.

Mas vou ter que me reacostumar a vizinhos barulhentos. Funk, brigas, cantaria, tudo até altas horas da noite, ontem à noite foi o que tive que aguentar. Ainda bem que eu estava cansada, ou nao teria dormido; ninguém liga para a tranquilidade dos outros. Em Luxemburgo sao os tratores e os barulhentos quads que incomodam de tempos em tempos, mas sempre durante o dia. De noite as pessoas dormem! 

O ser humano é mesmo muito egocêntrico...

Tuesday, July 5, 2011

Primeiro dia

Estou cansadissima. Foram duas horas até Bruxelas, 3 horas de espera, 1 hora de vôo até Frankfurt, corrida pra pegar o vôo pra Sao Paulo, 11 horas num aviao e todos sabem como atualmente é desconfortavel viajar de aviao. Os lugares diminuiram de tamanho, o serviço anda muito pior, realmente esta na hora de inventar logo a teleportaçao.

Chegando a Sao Paulo, na fila do passaporte ouço um grupo de três brasileiros que conversam e um deles, um garotao de uns 20 e poucos anos, dizer que com americana a gente faz o que quer, elas topam tudo, o que o cara pedir, e que as brasileiras ficam "regulando o negocio". Tinha uma garota no grupo que concordava ou nao dizia nada... quanta abobrinha. Tinha esquecido esse machismo ignorante. Nao que nao tenha machista la fora, deve ter, mas o fato é que aqui ouço muitas coisas do gênero. Talvez falemos mais o que os outros pensam, nao sei, mas que me deixa furiosa, isso deixa.

Mas a critica do dia é a falta de respeito das leis de trânsito, gente ultrapassando pela direita, sem pisca-pisca, e o pior, ninguém da' prioridade ao pedestre, aquela faixa nao parece querer dizer nada pra ninguém, que falta de civismo. Preciso tomar muito cuidado, foram 22 anos morando em dois paises onde o pedestre é mais que respeitado, temido :) Pensou em atravessar a rua, ja esta todo mundo parando o carro!!!

Mas que coisa maravilhosa encontrar uma vendedora das lojas Pernambucanas que se prontifica a me ajudar a carregar um monte de sacolas gigantes até o taxi que me esperava, fora da loja, a meia-quadra dali. E que prazer me da' ouvir criancinhas falando português! Uma mocinha perguntava na rua quem queria um chip de uma operadora de telefone de graça (deve ter uma pegadinha, claro) e um senhor diz "nao quero, nao, obrigado", ao que ela responde "claro, obrigada" e ele de novo "obrigado eu". Toda essa troca de delicadezas me lembra o que me falaram um dia em Osaka, quando éramos um grupo enorme de estudantes do mundo inteiro, e um professor me falou como ele tinha achado os estudantes brasileiros super educados, gentis, prestativos, respeituosos, ele nao poupou elogios.

Foi um bom dia, mas agora é hora de dormir o sono dos justos e dos simpaticos. :)

Monday, July 4, 2011

Voltando ao Brasil

Foram 22 anos fora e a vontade de voltar sempre esteve la', mas as coisas nem sempre são como a gente sonha, existe a hora certa, e existe o estado de espirito certo. Acho que tudo se reuniu este ano e eu vou me dar essa chance, esperando que dê certo, mas sem colocar muita pressão em mim mesma, porque sei como funciono, e eu gosto de ter a liberdade de voltar atras em qualquer decisão. 

Esse blog é um relato dessa viagem de volta, do que um filho dessa terra maravilhosa e ao mesmo tempo assustadora sente quando volta, o choque cultural, as criticas, os desencantos, mas também os reencontros com aquilo que é parte dele, com essa terra que o criou, deu estudo, comida, sonhos e uma cultura unica, que a gente carrega com mais orgulho uma vez que sai do Brasil e vê que somos mesmo um povo à parte, original e simpatico.

Hoje deixo Luxemburgo para meu primeiro passo.